Viajar para nós, é sinônimo de aprendizado, e a Rafa, além de nos levar nos melhores lugares de Barcelona, nos deu uma aula de cultura.
Adalberto, 3 de janeiro de 2016
O tempo é o touro do turista, já escreveu certa vez o Verissimo, durante uma curta e desabalada viagem pela Espanha. Em Barcelona em especial, com tanto para ver e provar e tão pouco tempo, é fácil terminar a corrida derrotado e exaurido, quando não esfarrapado e um pouco frustrado. Conosco o touro não teve vez. Em nossas últimas férias pela Catalunha, como na marchinha famosa, pegamos o chifrudo metafórico a unha. Nós não, na verdade quem domou o tempo para nós foi a guia carioca Rafa Mazzini, exímia toureira, digo, guia, da equipe de turismo Barcelona da Gema. Pelas mãos de nossa guia carioca, que além de competente faz precitos para lá de camaradas, reencontramos os mundos encantados de Gaudí, com suas casas e parques auto-sustentáveis criados em plenos anos 1900, visitamos tesouros insuspeitos como as colunas romanas gigantescas e quase secretas da cidade e nos arrepiamos com a Nossa Senhora buchudinha, uma das raras imagens da santa grávida, além de virgens negras, igrejas fantásticas sem um pingo de ouro em seu interior e outros tesouros que nos restauram a fé na humanidade, pelo menos por alguns dias. Sem falar nos comes y bebes, tudo do bom e do melhor. É uma maravilha quando se consegue experimentar tudo isso sem sentir na nuca o bafo do touro, sem apertar os passos e sem passar horas emaranhado em mapas. Grande Barcelona. Para quem havia espiado a Sagrada Família por dentro há dez anos, quando ainda era um magnífico porém inegável canteiro de obras, a visita à catedral idealizada por Gaudí (1852–1926) foi um arrebatamento. No placar, mais um ponto para a humanidade – vamos time! Onde havia deserto e poeira hoje existe uma floresta de colunas únicas banhadas de luz por vitrais belíssimos, e até um altar engenhoso. A felicidade cristã aumenta ainda mais quando ficamos sabendo que não há dinheiro público ali, e sim dinheiro do público, dos nossos ingressos e contribuições de locais e turistas. Gaudí, um cristão amante de ecologia, nos prova que para ter fé em Deus e nas coisas do lado de lá, é preciso antes uma incansável crença na capacidade dos homens. A Sagrada Família deve ficar pronta em 2026, com a maior e principal de suas torres quase acariciando as nuvens, mas não espere até lá para ver de perto. Dessa vez não fomos ao futebol, já que o Barcelona de Neymar & cia estava espancando um time pequeno europeu lá na Bielorússia, mas o futebol veio até nós. Estávamos flanando pelo bairro gótico, enquanto a Rafa nos contava sobre uma pequena e valente igreja, onde 40 crianças haviam sido fuziladas pelos capangas do general Franco, o ditador repugnante que todos aqui fazem questão de lembrar para que jamais surja ninguém remotamente parecido. Estávamos entretidos na História quando de trás de uma árvore surgiu um chico correndo de três coleguinhas, bola dominada com esperteza num dos pés. O malandrinho não se intimidou com os forasteiros, e antes que perdesse a jogada engatilhou um senhor chute, exatamente na minha direção, e fuzilou. Aparentemente, a porta da igreja onde ainda se veem os buracos da fuzilaria de Franco era a baliza para o molecote. O chute veio forte, mas eu matei com o lado de fora do pé, e a desviei para o outro lado da praça. Instintivamente, saí correndo feito um touro atrás da bola. Os pequenos catalães, sem medo do grandalhão que invadia o jogo, saíram tabelando e deixaram o zagueirão brasileiro comendo poeira. Valentes meninos! Avaliem agora se eu estivesse por lá com o nariz enfiado no mapa, que bolada desgraçada não seria? Obrigado, Rafa.
Marcelo Dunlop, 26 de outubro de 2015
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